Psicanálise e Cultura

A loucura tem sotaque?

Por Caroline Molina Leitura: 7 min

Alguém, ao seu lado, ouve uma voz que você não ouve. Antes mesmo de perguntar o que essa voz diz, a primeira coisa que vem à cabeça costuma ser outra: será que isso é normal?

Você provavelmente já fez essa pergunta sobre alguém, ou sobre si mesmo, mais vezes do que percebe. Um jeito de sentir, um jeito de reagir, um jeito de sofrer que foge do que se espera. E quase sempre a resposta já vem pronta, sem que a gente pare para perguntar. Normal segundo quem?

Antes de você nascer, alguém já tinha escolhido um nome, decorado um quarto, imaginado quem você seria. Já se falava sobre você antes que você pudesse falar por si. A psicanálise chama esse lugar de Outro, a cultura, a língua que você não escolheu, os vínculos que te formaram antes que você pudesse formar a si mesmo. É desse lugar que nascem perguntas que atravessam a vida inteira: o que o Outro espera de mim, o que ele quer que eu seja, como devo agir para ser amado.

É dentro dessa trama que o sofrimento também ganha forma. Como um sintoma é vivido por você e como um sintoma é vivido pela pessoa ao seu lado? Para a medicina, sintoma é o que foge da normalidade do corpo. Para a psicanálise, é outra coisa: um jeito de o inconsciente falar aquilo que a pessoa não consegue dizer de outro modo, atravessado pela cultura em que ela vive. Algo que se manifesta no lugar de outra coisa que foi reprimida. Assim, cada pessoa nomeia sua forma de sofrer de um jeito próprio, e os sintomas também mudam de acordo com o momento de vida de cada um e com a cultura em que está inserido.

Em 2015, um estudo colocou essa ideia à prova.

Pesquisadores entrevistaram pessoas com o mesmo diagnóstico psiquiátrico em três países diferentes, Estados Unidos, Índia e Gana, sobre como elas viviam as vozes que ouviam. O resultado não foi o mesmo em lugar nenhum.

Nos Estados Unidos, onde produtividade e eficiência funcionam quase como uma segunda religião, as vozes cobravam, humilhavam, mandavam se ferir, como se reproduzissem, ampliada, a mesma régua que a cultura já aplica sobre quem não produz, não rende, não dá conta. Na Índia e em Gana, onde a família, a ancestralidade e o sagrado ainda sustentam boa parte do sentido da vida, as vozes vinham como mãe, como pai ou até mesmo como a figura religiosa, orientando, ou repreendendo, e há quem diga que foram elas que os mantiveram vivos nos momentos mais difíceis.

O sofrimento, nesses casos, não deixava de doer, mas ganhava um lugar dentro de uma rede de sentido, em vez de isolar quem sofre numa experiência sem nome.

Freud, em "O Mal-Estar na Civilização", escreveu que boa parte do nosso sofrimento vem justamente da vida em sociedade, dos vínculos com a família, o Estado, os outros.

Ele descrevia uma humanidade que, mesmo diante de tantos avanços da ciência e da tecnologia, segue insatisfeita, sempre em busca do próximo prazer instantâneo. Talvez esse seja o ponto mais incômodo: cada conquista que nos afasta de um desconforto antigo também nos aproxima de um novo tipo de exigência. E é dentro dessa exigência, sempre local, sempre cultural, que cada sintoma encontra sua língua.

Se a loucura tem sotaque, será que estamos escutando a língua de quem sofre, ou apenas traduzindo tudo para a nossa?

Quem escuta profissionalmente carrega essa pergunta de um jeito mais concreto, mas ela não é só de consultório. Toda vez que alguém conta como sofre, existe uma escolha silenciosa: escutar a língua que essa pessoa fala ou traduzir tudo, sem perceber, para a língua que já conhecemos.

Se a loucura tem sotaque, a pergunta que fica é para quem escuta, seja no consultório, seja na roda de amigos, seja em casa: estamos ouvindo a pessoa, ou só a versão dela que já cabia no que a gente esperava ouvir?

Caroline Molina
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